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Como fazer o desenvolvimento da redação (com exemplos)
Em resumo
- O desenvolvimento é o coração da redação: em geral, dois parágrafos argumentativos (D1 e D2) que defendem a tese.
- Cada parágrafo segue a mesma estrutura: tópico frasal, fundamentação com repertório e fechamento.
- É nele que se jogam boa parte das competências 2 e 3 do ENEM.
Ter razão não basta: é preciso mostrar, em poucas frases bem organizadas. É exatamente isso que o desenvolvimento da redação pede, seja no ENEM, nos vestibulares ou em qualquer trabalho acadêmico. Aqui você encontra a estrutura do parágrafo, o método passo a passo, exemplos comentados frase por frase e os erros que mais tiram pontos.
O que é o desenvolvimento da redação
O desenvolvimento é a parte da redação em que você comprova a tese apresentada na introdução. Na redação do ENEM, um texto dissertativo-argumentativo de até 30 linhas, ele costuma ocupar dois parágrafos, chamados de D1 e D2, entre a introdução e a conclusão com a proposta de intervenção.
Cada parágrafo de desenvolvimento é um parágrafo argumentativo: ele defende uma única ideia, explica por que ela é válida e a apoia em uma prova concreta. É por isso que o desenvolvimento pesa tanto na nota: a competência 2 avalia o uso do repertório sociocultural, e a competência 3, a seleção e a organização dos argumentos em defesa de um ponto de vista.
Estrutura do parágrafo de desenvolvimento
Todo parágrafo de desenvolvimento segue o mesmo movimento: uma ideia, a explicação que a sustenta, a prova que a confirma e um fechamento que volta à tese.

Tópico frasal: apresentar o argumento
A primeira frase anuncia a ideia que o parágrafo vai defender, de forma clara e ligada à tese. Ela deve fazer sentido sozinha: quem ler só o início de D1 e D2 precisa entender todo o seu raciocínio.
Fundamentação: explicar por que é verdade
Em duas ou três frases, desenvolva o raciocínio que sustenta o argumento: uma causa, uma consequência, uma relação. Conectivos como “isso porque”, “já que” ou “desse modo” tornam a lógica visível. É a parte mais negligenciada, e a que separa uma redação mediana de uma redação forte.
Repertório: provar com uma referência
O repertório sociocultural é a prova: uma lei, um dado com fonte, um fato histórico, um autor, uma obra. Ele só vale se for pertinente ao tema e produtivo, ou seja, se você explicar em que ele confirma o argumento.
Fechamento: voltar à tese
A última frase retoma a tese e diz o que o parágrafo demonstrou. Ela também pode preparar o parágrafo seguinte ou a proposta de intervenção. Reformule a ideia, sem repetir o tópico frasal palavra por palavra.
O mesmo princípio, “cada bloco tem uma função”, vale em escala maior para a introdução do TCC e para a conclusão do TCC.
Como fazer o desenvolvimento em 6 passos
- Leia a proposta e os textos motivadores. Sublinhe as palavras-chave do tema: fugir delas, mesmo que parcialmente, custa caro.
- Defina a tese na introdução. O desenvolvimento só serve para provar o que você anunciou. Muitos estudantes anunciam já na introdução os dois argumentos de D1 e D2.
- Escolha dois argumentos complementares. Por exemplo, uma causa cultural e uma causa estrutural, ou uma causa e uma consequência.
- Associe um repertório a cada argumento. Prefira referências precisas e verificáveis, e anote de onde vêm: autor, obra, ano, lei.
- Escreva seguindo a estrutura. Uma frase de tópico frasal, duas ou três de fundamentação com o repertório, uma de fechamento.
- Releia com um teste simples. Depois de cada frase, pergunte: “e daí?”. Se a frase não faz o argumento avançar, pode sair.
Suas fontes estão bem citadas?
O Compilatio Studium compara seu texto com bilhões de fontes e indica os trechos que você deve revisar. Assim, você garante que cada citação esteja entre aspas e referenciada antes de entregar seu trabalho.
Exemplos de desenvolvimento comentados
Os exemplos estão anotados frase por frase: (TF) tópico frasal, (F) fundamentação, (R) repertório, (Fe) fechamento. Tirando as etiquetas, você tem parágrafos prontos.
Tema (ENEM 2023): “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”. Tese defendida na introdução: essa invisibilidade tem raízes culturais e é reforçada pela insuficiência de políticas públicas.

D1: o argumento cultural
(TF) Em primeiro lugar, a invisibilidade do trabalho de cuidado decorre de uma construção histórica que o apresenta como uma vocação natural das mulheres. (F) Ao ser visto como expressão de afeto, e não como trabalho, o cuidado com filhos, idosos e com a casa deixa de ser reconhecido, remunerado ou dividido de forma justa. (R) A filósofa Simone de Beauvoir já afirmava, em O Segundo Sexo (1949), que “ninguém nasce mulher: torna-se mulher”, ou seja, os papéis atribuídos a cada sexo são aprendidos socialmente, e não dados pela natureza. (Fe) Enquanto o cuidado for tratado como um dever feminino, seu peso continuará invisível.
Por que funciona: o repertório é pertinente (fala de papéis de gênero) e produtivo, porque a frase seguinte explica o que ele demonstra.
D2: o argumento estrutural
(TF) Além disso, a insuficiência de políticas públicas de apoio ao cuidado transfere essa responsabilidade quase inteiramente às famílias, e sobretudo às mães. (F) Sem vagas em creches, muitas mulheres precisam reduzir a jornada ou abandonar o emprego para cuidar dos filhos, o que aprofunda a desigualdade de renda entre homens e mulheres. (R) O próprio Plano Nacional de Educação (Lei 13.005/2014) fixou como meta atender, em creches, ao menos 50% das crianças de até 3 anos até o fim de sua vigência, um objetivo que o país não alcançou. (Fe) Desse modo, a omissão do Estado mantém o cuidado como um encargo privado e feminino.
Por que funciona: D2 traz um argumento diferente de D1 (estrutural, e não cultural) e prepara a proposta de intervenção, que poderá cobrar a ampliação das creches.
Exemplo universitário
Trecho da discussão de uma dissertação de mestrado em educação (dados fictícios, apenas para ilustrar).
(TF) Nossos resultados sugerem que comentários escritos detalhados melhoram mais as reescritas do que uma simples nota. (F) Os estudantes que receberam observações sobre a organização de seus parágrafos reestruturaram seus textos com mais frequência, enquanto os que receberam apenas a nota se limitaram a correções superficiais. (R) Em nossa amostra, 18 dos 25 estudantes do primeiro grupo modificaram a estrutura de pelo menos um parágrafo, contra 7 de 24 no segundo, o que converge com a revisão de Hattie e Timperley sobre os efeitos do feedback (2007). (Fe) Esse resultado precisa ser confirmado com uma amostra maior, o que propomos como perspectiva.
Por que funciona: na universidade, espera-se um resultado quantificado, um diálogo com a literatura e uma limitação reconhecida. Para situar esse trecho no conjunto do trabalho, veja nosso guia sobre como fazer um TCC.
Parágrafo argumentativo fraco e forte
A mesma ideia pode valer poucos ou muitos pontos, dependendo de como é construída. Tema: “As redes sociais prejudicam o debate democrático?”
Versão fraca 👎
As redes sociais são ruins para a democracia. Tem muita fake news e todo mundo sabe disso. Por exemplo, sempre tem fake news. Então as redes são perigosas.
Versão forte 👍
(TF) As redes sociais podem enfraquecer o debate democrático ao favorecer a circulação de informações não verificadas. (F) Seus algoritmos destacam os conteúdos que geram mais reações, e uma notícia surpreendente ou falsa costuma ser mais compartilhada do que uma notícia equilibrada. (R) Um estudo publicado na revista Science em 2018 por três pesquisadores do MIT, Soroush Vosoughi, Deb Roy e Sinan Aral, mostrou que, no Twitter, as notícias falsas se espalhavam mais longe e mais rápido do que as verdadeiras. (Fe) Sem checagem das fontes, essas plataformas podem distorcer o debate público em vez de enriquecê-lo.

O que mudou:
- o tópico frasal é preciso e matizado (“podem enfraquecer”), não um julgamento genérico;
- a fundamentação descreve um mecanismo, em vez de “todo mundo sabe”;
- o repertório tem fonte (revista, ano, autores), em vez de um exemplo vago;
- o fechamento volta ao tema, o debate democrático, em vez de terminar em “perigosas”.
Tipos de argumento e repertório sociocultural
O repertório é o que transforma uma opinião em argumento. Os tipos mais usados no desenvolvimento:
- Argumento de autoridade: a posição de um especialista, filósofo ou cientista reconhecido.
- Argumento histórico: um fato do passado que explica o problema atual.
- Argumento legal: a Constituição de 1988, uma lei, um tratado.
- Argumento estatístico: um dado com fonte e ano (IBGE, institutos de pesquisa, órgãos oficiais).
- Argumento de causa e consequência: a relação lógica entre um fato e seus efeitos.
Um repertório só conta se for verdadeiro. Frases atribuídas a autores famosos circulam na internet sem fonte, e uma citação errada fragiliza todo o parágrafo. Na dúvida, prefira uma referência que você consegue verificar.
Como citar o repertório sem errar
Três regras bastam:
- Apresente a fonte: autor, obra ou documento, e o ano quando ele importa. “Como escreve Paulo Freire em Pedagogia do Oprimido…”
- Cite pouco e entre aspas: um trecho curto e exato pesa mais do que um longo parágrafo copiado.
- Comente a citação: ao menos uma frase para dizer o que ela mostra e por que apoia seu argumento.

Exemplo: Como escreve Paulo Freire em Pedagogia do Oprimido, “ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”: para Freire, aprender é um processo de diálogo, e não uma simples transmissão de conteúdo.
Nos trabalhos acadêmicos, siga a norma exigida pela sua instituição, como as normas APA, use notas de rodapé quando necessário e reúna todas as fontes na sua bibliografia.
Dúvida sobre uma citação ou uma paráfrase?
Com o Compilatio Studium, você analisa seu documento antes de entregar e identifica os trechos muito próximos das fontes. A decisão continua sendo sua: aspas, reformulação ou referência.
Conectivos para o desenvolvimento
Os conectivos tornam o raciocínio visível e contam para a competência 4. Escolha-os pela função da frase:
- Abrir D1 e D2: em primeiro lugar, inicialmente, além disso, ademais.
- Explicar: isso porque, já que, uma vez que, visto que.
- Exemplificar: por exemplo, como demonstra, a exemplo de.
- Contrapor: no entanto, contudo, todavia, embora.
- Concluir o parágrafo: desse modo, assim, portanto, logo.
Varie os conectivos, mas sem exagero: três “além disso” no mesmo texto indicam uma lista de ideias, não um raciocínio.
Do desenvolvimento à proposta de intervenção
No ENEM, o desenvolvimento prepara a conclusão. A proposta de intervenção, avaliada na competência 5, deve responder aos problemas que você apontou em D1 e D2 e costuma reunir cinco elementos: agente, ação, modo ou meio, finalidade e detalhamento.
No exemplo acima, D1 aponta uma causa cultural e D2 uma causa estrutural. A proposta pode, então, prever campanhas educativas sobre a divisão do cuidado (resposta a D1) e a ampliação da rede de creches públicas (resposta a D2). Um desenvolvimento bem construído deixa a conclusão quase pronta.
Erros que tiram pontos
Antes de entregar, verifique se seu desenvolvimento evita estas oito armadilhas:
- Dois argumentos no mesmo parágrafo: separe-os, uma ideia por parágrafo.
- D1 e D2 que dizem a mesma coisa: escolha argumentos complementares.
- Repertório “de bolso” sem ligação com o tema: ele precisa ser pertinente e explicado.
- Citação sem fonte ou com autoria duvidosa: prefira o que você consegue verificar.
- Afirmações sem prova: “todo mundo sabe” não é argumento.
- Generalizações: “todos os jovens” vira “muitos jovens”, com dados.
- Fechamento que repete o tópico frasal: reformule e mostre o que foi demonstrado.
- Desenvolvimento desconectado da proposta: a conclusão deve responder aos problemas apontados.
Usar a IA sem perder sua voz
Um assistente de inteligência artificial pode ajudar você a treinar, desde que você continue responsável pelo que dá valor ao texto: a escolha dos argumentos e a maneira de defendê-los. E lembre-se: no dia da prova, você estará sozinho com a folha.
O que a IA faz bem:
- propor temas de treino e reformular uma proposta para conferir se você a entendeu;
- sugerir contra-argumentos para você praticar a defesa da sua tese;
- revisar a lógica de um parágrafo que você já escreveu.
O que deve continuar sendo seu:
- a tese e os argumentos;
- o repertório, que você deve sempre verificar, porque uma IA pode inventar uma citação, um dado ou uma lei;
- a redação final, com suas palavras.
Antes de entregar, você também pode passar seu texto por um detector de IA: ele indica os trechos que podem ter sido gerados por IA, para que você os revise com suas palavras.
Para trabalhos acadêmicos em que o uso é permitido, veja como referenciar o ChatGPT.
Entregue um trabalho com a sua cara
O Compilatio Studium identifica os trechos próximos de fontes existentes e aqueles que podem ter sido gerados por IA. Assim, você sabe exatamente o que revisar antes de entregar.
Perguntas frequentes sobre o desenvolvimento da redação
Quantas linhas deve ter cada parágrafo de desenvolvimento?
Não há regra oficial. Como a redação do ENEM tem no máximo 30 linhas, muitos estudantes reservam cerca de 7 a 9 linhas para cada parágrafo de desenvolvimento. O importante é que o argumento esteja explicado e apoiado em um repertório.
Quantos argumentos o desenvolvimento precisa ter?
Em geral, dois: um em D1 e outro em D2. Dois argumentos bem fundamentados valem mais do que quatro apenas citados.
Parágrafo argumentativo e parágrafo de desenvolvimento são a mesma coisa?
Na prática, sim: cada parágrafo de desenvolvimento de uma redação dissertativo-argumentativa é um parágrafo argumentativo, com tópico frasal, fundamentação e fechamento.
Posso escrever em primeira pessoa?
Na redação do ENEM, recomenda-se a impessoalidade: prefira construções como “é possível afirmar” ou “observa-se que”.
Este artigo foi útil?
Jérémy STERN
Trabalho todos os dias na forma como os conteúdos são criados, detetados e pesquisados online. No blogue da Compilatio, partilho a minha experiência sobre plágio, integridade académica e IA generativa.